Entidade avalia que apostas on-line retiram recursos do consumo, ampliam o endividamento e afetam a produtividade. Psiquiatra explica como o jogo evolui para dependência

O avanço das apostas on-line passou a preocupar a CDL Chapecó por um efeito que começa no orçamento doméstico e alcança o comércio, as empresas e o sistema de saúde. Para a entidade, o dinheiro destinado às bets deixa de pagar contas, comprar alimentos, roupas e medicamentos ou contratar serviços, o que reduz a circulação de renda na economia local.
O presidente da CDL Chapecó, Roni Tasca, afirma que o problema ultrapassou o campo do entretenimento. A facilidade para apostar pelo celular, a promessa de ganhos rápidos e os estímulos enviados pelas plataformas favorecem perdas sucessivas, muitas vezes com recursos necessários à manutenção da família.
“O trabalhador recebe o salário, começa com valores menores e, quando percebe, comprometeu uma parcela relevante da renda. Esse dinheiro deixa de sustentar o consumo e de movimentar o comércio. Depois aparecem as dívidas, os pedidos de adiantamento e os problemas dentro de casa e no trabalho”, observa.
A preocupação encontra respaldo em levantamentos recentes. Estimativa apresentada pela Confederação Nacional do Comércio, divulgada pela Folha de S.Paulo, aponta que a inadimplência relacionada às bets teria retirado R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima que 12,7 milhões de brasileiros estejam em situação de uso arriscado ou problemático de jogos, com danos sociais e econômicos de ao menos R$ 38,8 bilhões por ano.
Tasca relata o caso de uma dona de casa que começou a apostar por curiosidade e passou a comprometer a renda familiar. Mesmo após tentar parar, ela continuou a receber notificações, e-mails e mensagens com convites para voltar às plataformas. A família precisou assumir o controle do dinheiro para evitar novas perdas.
“As plataformas possuem mecanismos criados para viciar, o que agrava o problema. Não é apenas o valor perdido em uma aposta. É o recurso que fará falta no supermercado, na farmácia, na conta de luz e no comércio. Quando isso se repete, toda a economia sente”, afirma.
Reflexos no trabalho e na arrecadação
Os efeitos também chegam às empresas por meio de pedidos de antecipação salarial, empréstimos entre colegas, uso excessivo do celular durante o expediente, faltas, atrasos e redução do desempenho. Em 2025, os afastamentos relacionados à perda de controle sobre o jogo cresceram 60, conforme dados abertos do Ministério da Previdência Social.
A CDL Chapecó também questiona o tratamento tributário dado ao setor. Levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação estima que os tributos correspondam a cerca de 50% do preço dos automóveis, 34% da gasolina, 33% dos medicamentos, 30% da energia elétrica e 18% da cesta básica. Já as empresas de apostas esportivas autorizadas destinam 12% da receita bruta dos jogos, após o pagamento dos prêmios, conforme a regulamentação do setor.
“Existe uma distorção. Produtos indispensáveis suportam cargas tributárias elevadas, enquanto uma atividade com impactos econômicos e sociais negativos recebe tratamento proporcionalmente menor”, sublinha Tasca.
Como a aposta se torna compulsão
O prejuízo econômico apontado pela CDL está ligado ao funcionamento das plataformas e ao risco de adoecimento. A psiquiatra de Chapecó, Kimberly Masiero, explica que o transtorno do jogo é reconhecido pelo DSM-5 e pela CID-11 e integra o grupo dos transtornos relacionados a comportamentos aditivos, ao lado da dependência de álcool e outras drogas.
Segundo a médica, as plataformas digitais alteraram a dinâmica das apostas ao permitir acesso durante as 24 horas do dia. Bônus, notificações, recompensas rápidas e resultados em poucos segundos ampliam o estímulo e reduzem o intervalo entre uma aposta e outra.
O jogo ativa o circuito cerebral de recompensa e a liberação de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à expectativa. Como o ganho é imprevisível, o cérebro mantém a expectativa e incentiva a repetição do comportamento, mesmo diante de perdas.
“A recompensa imprevisível é uma das formas mais poderosas de condicionamento conhecidas pela neurociência. Com o tempo, o comportamento deixa de ser apenas prazeroso e se torna compulsivo”, explica Kimberly.
Entre os sinais de alerta estão a preocupação constante com apostas, a necessidade de arriscar valores maiores, as tentativas frustradas de parar, a irritabilidade ao interromper o jogo e a busca insistente por recuperar prejuízos. Também podem ocorrer ocultação dos gastos, empréstimos, venda de bens e comprometimento do trabalho e dos relacionamentos.
Embora qualquer pessoa possa desenvolver o transtorno, jovens, indivíduos impulsivos e pessoas com histórico de ansiedade, depressão, TDAH ou dependência química apresentam maior vulnerabilidade.
Tratamento
Kimberly destaca que o transtorno tem tratamento e que as chances de recuperação aumentam com a identificação precoce. A principal abordagem é a Terapia Cognitivo-Comportamental, que auxilia o paciente a reconhecer pensamentos, gatilhos e comportamentos associados às apostas.
O atendimento também deve investigar transtornos como ansiedade, depressão, TDAH e transtorno bipolar, que podem coexistir com a dependência e favorecer recaídas. Medidas práticas incluem o bloqueio de aplicativos e sites, a limitação do acesso ao dinheiro, o apoio da família e a participação em grupos como os Jogadores Anônimos.
Em alguns casos, medicamentos podem integrar o tratamento. Segundo a médica, antagonistas dos receptores opioides apresentam resultados promissores na redução da fissura, enquanto antidepressivos e estabilizadores do humor podem ser indicados para transtornos associados. A prescrição depende da avaliação individual.
“Não se trata de falta de força de vontade, mas de uma condição médica que envolve alterações no funcionamento do cérebro. Quanto mais cedo houver reconhecimento e tratamento adequado, melhores são os resultados”, ressalta a psiquiatra.
CDL cobra maior controle
Para a CDL Chapecó, economia e saúde não podem ser tratadas separadamente. A compulsão retira recursos do consumo, gera dívidas e conflitos, afeta o trabalho e transfere custos para famílias, empresas e serviços públicos. A entidade defende maior controle sobre a publicidade e as mensagens dirigidas aos usuários, educação financeira, identificação precoce da dependência e ampliação do atendimento em saúde mental.
“O desafio não é apenas regulamentar um mercado bilionário, mas impedir que o crescimento das apostas seja financiado pela renda e pelo sofrimento das famílias brasileiras”, enfatiza Tasca.



